Batuque da capoeira, prática narrativa, descolonial e inclusiva

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Resumo: A capoeira é um do gênero do batuque, é uma prática narrativa, descolonial e inclusiva, e contribui significativamente para o desenvolvimento da educação e transformação da coletividade. Discutir e compreender a definição da capoeira enquanto um batuque, e a sua diversidade nos modos de ensiná-la constitui-se como elementos a ser problematizado.  O vetor de criação e disseminação desse saber são as partilhas e a socialização do conhecimento, através de práticas cotidianas simbólicas e funcionais operadas no campo da tradição oral, logo, um costume narrativo, e de contação de histórias. Dentre essas práticas criativas e de transmissão do conhecimento aponta-se o cruzo, movimento de encontros de experiências que permitem a fluência de novos e outros saberes, disparadas a partir da ginga, do jogo, da música e das cantorias tradicionais. O objetivo da pesquisa foi assentar a capoeira como um batuque, compreender e documentar a pluralidade da transmissão do seu conhecimento por seus batuqueiros, mestres da cultura popular, enquanto difusores de um dispositivo educativo e inclusivo, que ofertam possibilidades de sentidos para a vida em uma variedade de espaços. A relevância dos apontamentos e dos ritos registrados a partir de narrativas dos mestres da capoeiragem dialogam paralelo, e em articulação com as proposições decoloniais de Costa, Torres, Grosfoguel (2019) enquanto projeto de libertação, e de Lima, N (2021) quando do processo de inclusão, uma vez que as práticas afrodiaspóricas definem-se como coletivas, e que só ocorrem em conjunto de modo comunitário. Compreendemos a prática da capoeira como uma gira ritualística que tem na circularidade elementos inclusivos e formativos como a dança e a música. Esses elementos se desenvolvem por meio das ladainhas, chulas, corridos, que são contos narrativos. A narrativa de memórias na capoeira possui uma simbiose entre corpo que escreve história, e intelecto de elabora a forma de transmiti-las. Logo, uma ação de (re) existência que se rebela através de uma luta disfarçada em dança. Nesse sentido e a extensão dessa proposta libertária, nos encontramos com a proposição do giro decolonial, formulação que designa um posicionamento político epistêmico, em contraponto a pretensa hegemonia eurocentrada, veiculada como único meio de obtenção e produção de saberes. Gira e giro se articulam por meio do jogo e da luta epistêmica do batuque da capoeiragem. Um movimento permanente de esquiva e deslocamentos na circularidade de modo crítico e afetivo operando na zona do “com” em um processo de inclusão e de (re) existência. Para o desenvolvimento desta tarefa, o repertório metodológico mobilizado foi o da pesquisa narrativa (auto) biográfica, ativado por meio da entrevistaconversa. Esse dispositivo documentou as narrativas dos mestres dos saberes do batuque da capoeira, ao mesmo tempo em que se desdobrava também as noções e vivências do narrador-pesquisador. Nessas conversas a finalidade foi registrar e identificar quais são as concepções de batuque de cada mestre, e a partir de quais fundamentos se valeram para socializar o conhecimento. O jogo do batuque da capoeira é uma brincadeira de pergunta e resposta que se estende até o momento e que um dos jogadores não possui mais repertório, ou seja, não demonstra mais condições de responder as perguntas aplicadas por seu parceiro de jogo na roda. Esse movimento de cruzo, gingado se constitui numa conversa estimulado pela música e pelo toque especifico do berimbau. Nesse sentido, mas na forma de um outro gingado, dadas as possibilidades de brincar de capoeira, se desenrola o jogo da entrevistaconversa entre os narradores, em que a pergunta disparadora provoca jogo narrativo da memória. Memória que se converte em um conjunto de experiências, vivências e saberes socializados. Nesse jogo, o repertório não tem fim. O jogo da capoeira é singular, cada jogo é diferente um do outro, mesmo aqueles jogados por dezenas de vezes entre os mesmos jogadores. Cada jogo é um saber que se cria, que flui, e essa caracterização é uma demonstração conceitual e concreta do aprender a capoeira, fazendojogando, é o que a professora Bragança (2021) chama de pesquisaformação. Nesse particular, o que é essa conceituação senão um jogo de pergunta e reposta, senão um golpe com uma esquiva, senão uma ladainha bem cantada, e que tem como finalidade provocar o outro. Nessa perspectiva metodológica a idéia é provocar o diálogo, a conversa para a confluência da narrativa. A capoeira é uma das centenas de gêneros do batuque praticados e patrimonializados no Brasil. Seu ensino se fortaleceu com a promulgação das Leis 10.639/03, 11.645/08 e da lei 12.288/10 que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial. Essa legitimidade decorre da preservação cotidiana desenvolvida por mestres da capoeira. As narrativas dos detentores cumpriram finalidade de facilitar o entendimento acerca da noção do batuque como ferramenta de ensino, formação e inclusão, e no fortalecimento da educação antirracista. O entendimento distinto de cada um dos mestres revelou a pluralidade conceitual do que é o batuque da capoeira, e como ela se desenvolve em cada dimensão no campo do conhecimento. A pesquisa não teve o objetivo de eleger nenhum tipo de verdade acerca do bem imaterial, mas demonstrar a variedade de métodos formativos existentes e adotados pelos batuqueiros no meio da capoeiragem. O objetivo da pesquisa foi alcançado, a medida em que foram reveladas de forma singular, as noções praticadas de cada detentor sobre o que entendiam, e como desenvolviam o ensino do batuque da capoeira. As narrativas dos mestres revelam noções diversas acerca do batuque enquanto prática e espaço de transmissão. As diferenças surgem no campo do repertório histórico e social de cada um. Essa diferença é demonstrada no corpo, na linguagem e no modo de pronunciar seus saberes. O lugar de origem de cada um dos mestres é um dos marcadores que produz a relação entre a compreensão e prática do que é o batuque da capoeira. A prática, o ensino e a preservação do patrimônio cultural imaterial brasileiro ocorrem em espaços formativos diversos. A academia de capoeira em que a dimensão da luta e do esporte são ensinados é um espaço. A associação comunitária de moradores, ou uma associação cultural reconhecida como Ponto de Cultura em que as dimensões educativa, cultural e estética são ensinados, também se convertem em espaços de ensino. A instituição pública e privada são outros exemplos de ocupação do espaço para a formação do batuque da capoeira. Ao consideramos espaços como dimensões em que os saberes são partilhados, compreendemos também a importância em como se dá essa partilha. O próprio batuque em si se constitui em espaço, uma vez que a transmissão de seu saber não implica obrigatoriamente na existência de um ambiente físico. Se ensina e se aprende capoeira em qualquer metro quadrado, de qualquer modo, pois seu saber está no corpo e no intelecto. Ao tratarmos das narrativas dos mestres do oficio do batuque, uma pergunta é disparada, e a memória do velho mestre é acionada. A oralidade ganha corpo e música, e os saberes experiências e vivências são partilhados. Nesse caso, a conversa é o meio pelo qual se desenvolve a formação, independente do espaço ocupado, o saber do batuque da capoeira flui. A memória e as narrativas dos batuqueiros se constituem em conhecimento de transformação impactando na transmissão do saber de uma geração para a outra, conforme orienta a tradição oral. O batuque da capoeira é um discurso narrativo que tem na memória do corpo o seu principal locus de enunciação.

Palavras-Chave: Capoeira, Educação, Memória.

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