Mão na cabeça!

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Desliga o motor, desce do carro e mão na cabeça. Trata-se de um repertório de boa parte dos moradores do Bairro, principalmente de todas as periferias. 1996.

Pois bem, quem no Jardim Amanda nos anos dourados das ruas de terras, poeira no ar e o cheiro de fumaça na madrugada não fora abordado respeitosamente pela polícia ou pela guarda municipal.

Quem na madrugada no Jardim Amanda, quer vindo do trabalho de possante, quer saindo da balada no Rashid ou no regresso da residência da namorada não se deparou inesperadamente com os “berros” na cara, e no ouvido dirigido por um distinto agente de segurança pública. Quem não passou por essa “vivência” não guarda esse patrimônio na memória, e nem no repertório. Privilégio de quem amassou muito barro nas mais de 100 ruas do Jardim Amanda.

Moro na quebrada há 28 anos, já mudei do bairro por duas vezes e voltei. Hoje fixo residência no Amanda I. Nesses 28 anos são muitas as histórias. Ao chegar aqui aos 16 anos já possuía uma certa bagagem, um relativo repertório de vida. Treino capoeira desde os meus 13 anos de idade, muito antes de sofrer com a água barrenta dos áureos anos 90 aqui no Jardim Amanda.

Um morador da periferia, preto pardo e pobre certamente traz consigo poucas e boas para contar. Futebol, namoricos, brigas, desemprego, perrengue, poeira e barro em dia de chuva. Mas uma trivialidade me parece comum entre os moradores das periferias; a estreita relação com a suspeição eterna e supostamente delituosa resultante da forma como se vive, onde se vive, como se veste e anda.

“Das tantas as vezes em que fui fiscalizado pela ordem pública, me lembro de todas. A que me ocorre com frequência são as dos dos disparos feitos na direção do Corcel II verde 1.6 ano 79 do mais falecido pai”

Já madrugada, vinha de Valinhos onde participara de um grande evento de capoeira. Antigamente quem vinha pela rodovia SP 101 tinha várias opções para entrar no bairro. Eu saia da Rodovia entrava no bairro pela Avenida Tarsila do Amaral. Para entrar por ela tinha que ser devagar por conta dos buracos, e depois descer com uma certa tranquilidade, embora a Avenida não fosse asfaltada, mas a terra batida era como um asfalto em determinados pontos.

Como era madrugada, aproveitei o deserto da rua e decidi descer com uma relativa mas segura velocidade. O problema é que subia uma poeira assustadora, razão pela qual, acredito, a viatura da GM na época empreendeu perseguição sobre o capoeira que vos escreve, cansado que estava e com pressa para chegar em casa não percebi que o pontinho luminoso lá distante e veloz vinha em minha rabeira. Sem perceber estavam em cima. De novo não percebi e nem prestava atenção.

Ocorre que não era possível ouvir o som da sirene e nem a grita dos agentes em razão da barulheira interna do possante. Só percebi a perseguição quando virei a penúltima esquina da quebrada e pelo retrovisor um farolete escandalosamente vermelho e os sons dos estampidos muito próximo. Freei o corcelzão e somente aí pude perceber a situação. A partir daí aquele roteiro de sempre. Desliga o motor, desce do carro e mão na cabeça.

Depois disso, já conhecem a história, documento, averiguação e por último o pedido de desculpas com a justificativa de que o possante Corcel II ano 79, valente mas no bico do corvo, se assemelhava as descrições de um veículo suspeito.  Calculei que deveria haver um segundo corcel verde de madrugada traquinando a comunidade. Será?

O repertório semelhante é denso, daria um livro. O que não deixa de ser de uma certa forma um processo pedagógico, de aprendizagem. De relacionamento que contribui para a dimensão identitária de um jovem da periferia. Enfim. Gosto da minha quebrada.

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