O Amoral, 2º e 3ª parágrafos

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Dos Jornaizinhos e Revistas. Na medida em que Os Jornalistas se revela, se revela também aos poucos não só os traços subjetivos e objetivos do autor Balzac, mas a metafisica do jornalista.

Certa vez na faculdade de Jornalismo, numa dessas rodinhas empolgadas de estudantes entre o intervalo de uma aula e outra, diga-se de passagem, aulas brilhantes, um dos professores nos revelou como numa manchete de capa. “Jornalismo não dá dinheiro, te dá status” e prosseguiu, “Se vocês querem ganhar dinheiro, estão no curso errado, vão estudar Direito ou Publicidade. Agora, o jornalismo lhes proporcionara experiências maravilhosas, menos riqueza, sentenciou o professor.

Essa introdução serve como uma constatação de fatos objetivos, modernos e contemporâneos; uma tentativa de ilustrar os pormenores freudianos que circundam a mente e desejos dos tipos descritos por Balzac, não só em os Jornalistas, mas na Comédia Humana. Dois exemplos curiosos no segundo parágrafo dão conta de nos fazer compreender essa dimensão, que esquadrinha a realidade concreta e psicológica de um jornalista.

O primeiro diz a nota, refere-se ao “mirabolante Emile de Girardin”. Não se trata de nenhum um personagem de Balzac, mas fatalmente deve ter inspirado eloquentemente na descrição de tipos. Girardin foi um jornalista que inovou na forma de se fazer jornal na França. Ele inaugurou as publicidades e potencializou os folhetins publicando novelas, artigos e crônicas em seu Jornal La Presse, em meados do século XIX. Surpreendente e pomposo Girardin certamente guardou glórias; fez ele a associação execrável condenada por Balzac, juntou jornalismo com a prática política de gabinetes.

O segundo exemplo da nota destaca-se em Ilusões Perdidas, obra balzaquiana reunida na Comédia Humana, e que tem como personagem central o poeta Lucien, provinciano de família pobre e que consegue se aproximar do Jornalismo na capital francesa, situação que lhe permite a obtenção de uma certa notoriedade e dinheiro, esse último insuficiente para manter um padrão de vida impresso no dia a dia e que se assemelhava à de nobres e abastados franceses.

Ausente de qualquer prudência e responsabilidade, Lucien se envolve e situações pouco recomendáveis para um senhor das letras, que de certa forma ganhou fama e um pouco de recursos. Lucien é mais um retrato narrado por Balzac e que lá na intimidade da escrivaninha balzaquiana sucumbiu às confissões de sua consciência.

Para citar Balzac imerso no seu flagelo amoral, os jornalistas “são criadores natimortos que desperdiçam seu talento, prostituem sua pena e, pouco a pouco, renunciam à grandeza de uma obra que eles preterem em favor de pequenas vaidades imediatas da crônica ou do bilhete” Segue a nota, não teria Balzac cedido a essas imoralidades? Certamente que sim. Balzac é réu confesso nessa seara, e Lucien de Ilusões Perdidas lhe empresta a face para esbofeteio, difamações e injúrias.

O que dizer então dos Jornalistas das mídias e Fan pages? Teriam eles sucumbidos às luxurias e efemeridades provenientes do exercício do poder e da fama? Ou ainda não, permanecem impolutos e encastelados sob a carapuça da produção da verdade absoluta, sob a clausula pétrea da liberdade de imprensa, empresa e expressão?

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