Voz Ativa, e o letramento da Massa

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“Eu tenho algo a dizer, e explicar para você, mas não garanto, porém, que engraçado eu serei dessa vez. Para os manos daqui, para os manos de lá. Se você se considera negro, pra negro será, mano. Sei que problemas voce tem demais, e nem na rua não te deixam na sua, entre madames fodidas e os racistas fardados de cérebro atrofiado não te deixam em paz”

Conheci os Racionais entre 89 para os anos 90 nos bailes em que a Zimbabwe promovia no terraço Bahamas em Campinas. Naquele período eles se apresentavam no meio da massa e não precisavam de palco, literalmente, o que não significava e não significa nada, dada a grandeza e a contribuição que deram para a formação da massa crítica da juventude periférica naquele período.

A provocação político-filosófica dos Racionais provocaram e incitaram a sanha do poder instituído, e a curiosidade da intelectualidade acadêmica. Toda discussão em torno da noção de pertencimento, o drama racial e a necessidade de uma atitude mais propositiva frente à opressão eram objeto do letramento racional. O resultado foi a revelação de um grupo de jovens negros da periferia que despontaram como o coletivo rebelde da cena paulistana na conjuntura dos anos 90, e que conquistou o Brasil.

No auge da maturidade adolescente dos 16 anos não fazíamos ideia do suporte histórico que subsidiavam as rimas do grupo. Citavam pensamentos e personalidades que ainda não compunham o repertório da imensa maioria. Falavam de Malcom X, invocavam conceitos em formulação, e reivindicavam um protagonismo incendiário a ponto de subverter o espiral arquitetado pelo poder da informação dominante.

Martinho da Vila em um dos Shows da Massa, como costumava falar ao referir-se a sua gente.

Os Racionais apresentaram um diagnóstico sócio-racial por meio de uma linguagem que conversava com o cotidiano de uma massa negra que sofria com todo tipo de adversidade na maior metropole do país. Ao mesmo tempo clareavam a caminhada de muitos jovens negros daquele período ajudando a cerrar as fileiras de vários movimentos que vinham abrindo frentes de conquistas e direitos, como as políticas de ações afirmativas tal como a a lei das cotas, a lei 10.639 entre outras conquistas.

A Zimbabwe não proporcionava só lazer, mas era um canal para a voz ativa de várias gerações. Eles abriram espaços para a (re) reconquista de territórios e de corpos alterando sentidos, e a razão de ser negro nas comunidades do Estado de São Paulo. Esse movimento foi realizado ao sabor da sabedoria de fresta, tipico da afrocentrismo brasileiro. Essa abertura se deu com alegria, festa e muita dança, saberes referenciados por intelectuais e pesquisadores do pós colonialismo, decoloniais, contra-coloniais e de mestres dos saberes populares.

O Rap dos Racionais, o samba rock de Bebeto e Branca de Neve, o samba carioca de Zeca Pagodinho e Martinho Vila, a capoeiragem baiana e os bailes no terraço Bahamas aos sabados produziram um reportório político e racial que me atravessa desde aqueles tempos, e que me deu a identidade e ancestralidade que vim a descobrir anos mais tarde. Esse repertório me forneceu a estratégia para compreender qual minha posição, quais são as lutas a serem agarradas com consciência crítica e serenidade. A cultura e a educação na capoeiragem é a principal delas. Asé

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