Comentário. Conversas com quem gosta de ensinar

0
80

Uma crônica para quem gosta de crônica. Narrativa de saberes, dispositivo ativado a partir da leitura do livro de Rubem Alves

Conversas com quem gosta de ensinar é o título de um dos diversos livros do filósofo teólogo e educador Rubem Alves publicado pela antiga editora Papirus de Campinas. Esse exemplar possui 12 edições desde a sua primeira publicação ocorrida em 2000. Esse livro reúne um conjunto de crônicas e saberes deste mineiro de Boa Esperança, que adotou Campinas como sua morada.

Hoje, depois de décadas de contato com as crônicas de Rubem Alves, as compreendo como movimentos de cruzo. Cruzo são os movimentos de encontros e experiencias que permitem a fluência de novos outros saberes. Esse conceito foi e é bem difundido pelos escritores Luis Antonio Simas e Luiz Rufino, em diversos livros dentre eles destaco Flecha no Tempo e a Ciência encantada das macumbas.

As crônicas de Rubem Alves são pensamentos e práticas conceitualizadas por outros pensadores, e que entendo trazer correspondências com a decolonialidade do ser do estar e do poder discutidas pelos pensadores Bernardino Costa, Maldonado Torres e Ramon Grosfoguel, e que se refere a uma proposta de luta formativa, de (re) existência cotidiana frente aos padrões normativos e impositivos operada pela dita modernidade. Daí que as palavras do teólogo e educador traz como propostas o rompimento com essa modernidade limitante que impede o desenvolvimento espontâneo da criatividade enunciadas por uma roda de samba, por uma roda de capoeira ou uma simples roda de conversa a beira de um balcão de botequim, como fez meu pai magistralmente.

Na verdade, as leituras das crônicas de Rubem Alves eram como deslocamentos macumbísticos que me conduziram e ainda conduz as possibilidades, ao menos em parte. A outra parte desse deslocamento depende unicamente de mim, e de minhas resoluções com a circularidade que dialoga comigo todas as manhãs, como contradições que são. Mas essa é outra demanda a ser trilhada.

A leitura desse livro Conversas com quem gosta de ensinar me remete ao cruzo,  pensamentos e formulações teóricas de outros corpos mobilizados, e inquietos como o meu. O curioso é que Rubem Alves e suas conceituações práticas não foram debatidas e citadas no meu trabalho dissertativo na Unicamp, um lapso.

Como já confidenciado anteriormente em outra narrativa, todos os domingos nos idos da segunda metade dos anos 90 para os anos 2000 desenvolvi o hábito de ler as crônicas dominicais de Rubem Alves no Jornal Correio Popular. Estas leituras dominicais eram como uma obrigação, e que produziu efeitos profundos no meu modo de enxergar a vida, as pessoas etc.

Certa vez, num gesto de ler os dias e o cotidiano, encontrei de forma inesperada Rubem Alves em meio a uma fila de embarque no antigo saguão do aeroporto de Viracopos. Por coincidência ou ação físico do tempo, eu tinha em minhas mãos o livro Navegando de autoria do próprio Rubem Alves. Sempre carrego um livro a tira colo. Não titubeei e pedi a ele que escrevesse algumas palavras. Me chamou a atenção o humor e a disposição do velhinho. Perguntou meu nome e escreveu a dedicatória. Nos cumprimentamos e ele permaneceu na fila a espera do atendimento. Fui embora na perspectiva da leitura de mais uma crônica, de mais um ensinamento de mais um deslocamento.

As leituras das crônicas nos jornais se deram por força do habito de meu pai, ele adorava ler jornais. Desenvolvi o hábito com ele, e depois com o tempo encontrei as crônicas de Rubem Alves à procura de outro Rubem, o Braga. Foram como encruzilhadas para o corpo, com a capoeira e com o pensamento. E em meio a essa trama, a decolonialidade do ser com os encontros no Ilê de Doné Eleonora em Hortolândia, e na sequencia com a professora Norma na Faculdade de Educação na Unicamp se revelam como propósito de vida.

Veja como se dão as pernadas da mente e do corpo. Assim como o meu saudoso pai, cuja alegria de viver foi interrompida por uma doença que o levou ao encantamento, Rubem Alves operou na mesma semântica, e a alegria do seu sorriso só foi interrompida com a sua partida em razão de um câncer, a exemplo de meu pai. Ambos porém, seguem alegrando, um com a memória das experiencias, e o outro com as crônicas mais viventes do que a eternidade do tempo.

Pois é, são os dois, como muitos outros, que operaram no campo da minha consciência descolonial, da mesma forma que operam no campo do inconsciente, e que são ativados no instante em que esse corpo negro se mobiliza para o deslocamento cotidiano. Seu Alves e meu pai operam na dimensão exusiacas como faróis na estrada em noite sem lua, conforme o verso do velho mestre da capoeiragem. São como pombas giras que dançam alegremente e incansáveis numa demonstração de vida.

Por isso as conversas ensinam, por isso as conversas nos deslocam. Saravá ao povo do ensino, saravá seu Rubem Alves, saravá meu pai, asé.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui