O Raio X de o Agente Secreto

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A trama de o Agente Secreto revela o que se viu com a premiação no Globo de Ouro. Revela também um portfólio bastante vasto e de relevância para a memória do país.

O premiado filme o Agente Secreto do recifense Kléber Mendonça Filho protagonizado por Wagner Moura expõem o raio x do cinema e da realidade brasileira. Esse diagnóstico não é só da conjuntura do momento observado a partir dos prêmios recentes, mas de um período que tem como marco histórico Nelson Pereira dos Santos com Rio 40 graus, passando pelo o Pagador de Promessas de Anselmo Duarte até chegarmos no Cinema Novo de Glauber Rocha com Terra em Transe e Deus o Diabo na Terra do Sol e desemborcarmos na Pornochanchada.

Na sequência uma retomada com títulos de fazer frente a qualquer produção estadunidense, como Eles não usam Black Tie, O que é isso Companheiro, Central do Brasil e o desprestigiado e magnífico Narradores de Jávé.

O cinema brasileiro tem suas características e nuances, dramas tramas e excelentes atores e atrizes. Essa pequena ficha técnica do cinema pindorâmico responde por boa parte da narrativa histórica da qual somos formados, a exemplo do jornalismo independente, de não perder o fio da história e da memória.

Memória que vem mais uma vez à tona com o Agente Secreto e Ainda estou aqui como remédio para não permitir que esqueçamos a atrocidades cometidas pelo regime militar, que há séculos promove o discurso oficial. Discurso que concorre com a linguagem cinematográfica, que narra com o verniz do lirismo estético o que foi o autoritarismo no Brasil.

A nação brasileira deve ao cinema brasileiro à exposição permanente da memória política cultural e social, a disseminação factual da história, de modo que possibilite ao telespectador desenvolver seu discernimento, ao menos parcela dela. A outra parcela opta pela captura do discurso reacionário da defesa pela família pátria e liberdade, ou coisa assim. A redundância discursiva e binária entre o bem e o mal produz suas vítimas no Brasil, e o Agente Secreto propõe alternativa de enfrentamento nesse cenário, como propõem os quilombos, movimentos sociais e culturais espalhados por Pontos de Culturas do Oiapoque ao Chuí, só para rememorar o bordão dos anos 80.

Mas essa conversa de Agente Secreto fica cada vez melhor quando o recorte é exclusivamente o filme e o cinema. Digo isso porque me parece, o cinema protagonizado por cineastas pernambucanos produzidos com a lente virada para o marco zero do Recife, para o rio Capiberibe, para o carnaval do Galo da Madrugada ou para o interior do Estado de Pernambuco apresenta um Brasil avesso aqueles filmados pelas telenovelas da Rede Globo, que se concentram nos sofisticados bairros de São Paulo e Rio de Janeiro.

Não se trata de comparação, o eixo produz cinema maravilhosos, repito, opto por um recorte geográfico do cinema para evidenciar a filosofia marcante de diretores como Kleber Mendonça Filho, que na verdade representa um time de outros diretores e autores cuja obra é de uma maestria relevante.

Cito Claudio Assis e o que chamo de cinema visceral, Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Big Jato e Febre do Rato. Lírio Ferreira integra essa corrente de bruxos que vem potencializando o cinema e toda a sua cadeia com Arido Movie, Sangue Azul, Baile Perfumado, e mais recentemente o Acqua Movie.

Por isso, ao meu ver, não é possível assistir o Agente Secreto sem que não lembremos dessas referências da cinematografia brasileira, e que estabelece nexos entre os seus enredos. Trata-se um Brasil que luta, continua lutando cuja sina é a luta permanente. O cinema expõe esse raio x, razão pela qual o Agente Secreto e a memória de Marcelo Rubem Paiva cause tanto frisson e irritação do reacionarismo atrasado no Brasil. Laroyê.

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